JUSTIÇA LENTA, ADVOGADO NERVOSO.

SÉRGIO COUTO.

Imagine que lhe foi avisado de que sua casa está pegando fogo. Que sua presença lá é urgente. Você sai correndo do escritório, chama um taxi, dá o endereço e pede que o motorista vá à toda. O motorista baixa a bandeira dois e pisa fundo. Você fica pensando o porque da bandeira dois, mas aceita. Tem pressa. Logo na primeira esquina, porém,  o trânsito está congestionado. Uma longa fila quíntupla à sua frente de carros buzinando. Um inferno! Um guarda de trânsito, PM ou vermelhinho, não importa, trila o apito e gesticula como um louco, sem conseguir nada. É a fila do primeiro posto de pedágio. Ainda tem mais 15 pela frente. Todo dia o pedágio aumenta. Já não dão mais nem recibo. Paciência. Não se tem escolha. 20 paus em cada parada do pedágio. Eis que  o  velho taxi começa a ferver. O motorista desce agitado e abre o capô. Enfia a cabeça e logo tira, gritando por auxílio. Um sujeito sujo de graxa aparece, como se estivesse de plantão. Nem pergunta. Vai logo afundando meio corpo no capô aberto, com ar de conhecedor. Passados alguns minutos, que parecem séculos, o cidadão levanta a cabeça, suspira, franze a testa, coloca o dedo indicado sobre os lábios como se quisesse pedir silêncio, e diagnostica solene:- falta água no radiador. E daí?, pergunta o motorista nervoso. Ponha água! Diz o mecânico. Quanto custa? Instiga o motorista. 50 paus, fala o mecânico. Um absurdo, pensa você que ouve a conversa, já incomodado. O motorista, então, mete a cabeça para dentro da cabine e pergunta:- O senhor tem dinheiro aí para a água do radiador? Ainda bem, pensa você. Tem mecânico que pede dinheiro para “molhar o pé da planta”. Como você está com pressa, não resta outra alternativa. Puxa do bolso uma nota de 50 reais e dá para o motorista, que o repassa para o mecânico. Leva uma eternidade para o mecânico trazer a água. Mas traz, depois de levar um esculacho do motorista. A corrida recomeça. O trânsito continua lento. Para desviar do engarrafamento, o motorista resolve atalhar por uma transversal. Pior a emenda do que o soneto. A rua está interditada obrigando ao motorista a dar uma volta imensa. Enfim, vamos lá. O importante é salvar a casa. O trânsito agora está escoando livre. Eis que um guarda apita. O motorista pára. O guarda se aproxima:- o senhor estava com excesso de velocidade. Mas eu, seu guarda?, reclama o motorista. Se este calhambeque passasse de 40 km., se desmilinguiria todo. O guarda continua impassível, com cara de mau. Lá do banco de traz, você tenta comover a autoridade. Seu guarda, por favor, deixa isso pra lá. Minha casa está pegando fogo. Eu tenho que chegar logo lá senão não restará mais nada. O guarda não está nem aí. De braços cruzados, com jeito de gênio de garrafa, rodeia o carro com o talonário de multa na mão e vai falando:- pneu careca, não tem faróis, falta para brisas, para choque amassado, selo vencido...E o tempo vai passando... O motorista então reage:- quanto é a multa? Vê logo aí quanto é que é que o homem aí atrás está com pressa. O guarda nem tchum. Vagarosamente foi consultando seu livrinho de Código de Trânsito encardido e anotando os artigos infringidos. Finalmente, estende o talonário e pede a assinatura do motorista. Tira a primeira via, entrega, liberando o veículo, já apitando para um outro calhambeque que vem lá se resfolegando. Nada mal. Pelo menos, este não pediu “um mole”, pensa você. A corrida recomeça mas o tempo gasto foi enorme. De longe, você vê a fumaceira subindo da direção da sua casa. Enfim, o motorista pára em frente a um monte de carvão fumegante, resto inútil daquilo que, antigamente, você chamava de meu lar. O motorista, olhando pelo retrovisor, expõe fazendo as contas:- a corrida é 20, mais  320 dos 16 pedágios, a multa de 500, fica tudo por 840. Você, que só tinha a pelega de 50 que deu para o mecânico que trouxe a água, até que enfim explode:- oitocentos o quê, seu miserável? Vai roubar assim lá na caixa prego! Por isso é que ninguém confia em motorista de taxi velho. O motorista, ao que tudo indica pela cara de desânimo, parece que já tinha ouvido aquela história antes. Faz muxoxo, levanta e abaixa seguidamente os braços desalentado. Enfim, abre a porta, olha para o carro com ar de desdém, e começa a chutar a lataria velha praguejando. Você, também prejudicado pela demora,  ficou lá dentro do carro, chorando sua própria desgraça. Pois bem. Você deve estar curioso para saber qual é a moral da história. Moral mesmo, não tem nenhuma. Mas, se alguém quiser tirar alguma conclusão, faz de conta que você é você mesmo; que o taxi velho é o processo; que as ruas é o Fórum; que o pedágio são as custas; que o engarrafamento são os outros processos; que a alameda interditada são os recursos; que o mecânico é o escrivão; que o guarda de trânsito é o juiz; que a multa são os honorários; que o monte de cinzas é o seu direito; que o motorista é o seu advogado e que o prejuízo é de todos.